SIRIUS4all #Imagining Europe Otherwise

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the SIRIUS4all team

Eis um pesado pesadelo… acordamos, andamos até à casa-de-banho, vemos o nosso reflexo e deparamo-nos com o Estranho: o eu do outro lado do espelho recusa-se a copiar todos os movimentos do eu deste lado, exibe-se como vivo, tão vivo como este eu, imbuído da mesma agência. Surpreende, mas não aterroriza. Num enquanto. O terror chega mal o eu de lá salta em frente, lança os braços pela superfície do espelho para agarrar o eu de cá que, num instante, é projetado para o outro lado. O nosso eu cativo dentro do mundo do espelho, e o Outro, tomando o nosso lugar.

Um pesadelo, apenas por terminar assim. Fosse um simples prólogo e seria antes a aventura: dois eus passeando-se, descobrindo mundos completamente novos, tão semelhantes quanto estranhamente únicos.

O projeto SIRIUS4all ofereceu uma aventura. Começava assim: e se a Arte pudesse ser mais que um reflexo?, se também pudesse ser um portal, um túnel em cujo fundo cintila uma luz?, e se atravessássemos esse portão para nos descobrirmos numa Europa diferente, onde as crises o desespero e o desânimo não reinassem?

Na raiz e no caule, o SIRIUS4all é um coletivo enterrado em Sofia, Copenhaga, Berlim, Perúgia e Lisboa, um círculo amigável que se abre aos avatares de Ulisses: os que foram metamorfoseados pela Viagem, os que atracam numa praia como Estrangeiros e nela são capazes de fazer os seus Reinos. Artistas que migraram, fosse com os seus pés, com a sua mente, ou com os seus corações. SIRIUS4all é um coletivo lúcido sobre a sua natureza dupla de Eu(s)-Outro(s), gozando um piquenique, um lugar dentro de um lugar, onde se podem experimentar trilhos.

Após aprender com as experiência do #MultiFRAMEd:Sofia, um encontro na Bulgária que explorou a formação de Outros (externos e internos) numa Europa líquida, da #ReImagining:Europe, uma caminhada pela Dinamarca que perguntou quanta areia da terra natal sobeja nos sapatos quando chegamos a um algures, da #Sounding:EUROPE, uma câmara na Alemanha que capturou os sons nativos e recém-chegados desse continente, entretecendo-os numa sinfonia, e da #Autobiographing:Europe, uma tarde soalheira em Itália, onde o eu se deixa orgulhosamente descobrir pelo outro, e o hoje se senta desavergonhadamente sobre o então, a #Imagining Europe Otherwise ofereceu uma escola portuguesa, uma instituição que se desintegra sob o peso do tempo, da mudança e da vergonha, onde a possibilidade de sobreviver já só existe entre nós… quando o outro é salvador.

Como tantas outras vezes, se soubermos esperar o suficiente, o pesadelo torna-se aventura.

Saravá!

ivo